segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A FÉ QUE OPERA MILAGRES


Texto: Lc 7:1-10

Entendo que nosso maior desafio a ser enfrentado no tempo presente, é de mantermos a chama de nossa fé viva frente a realidade pós moderna. Um dos maiores inimigos a serem resistidos chama-se RELATIVISMO e CIENTIFICISMO BÍBLICO. Uma das prédicas atuais tem sido: "não há verdade absoluta!" Partindo deste pressuposto, quão difícil passa a ser para a igreja contemporânea manter-se fiel aos princípios da palavra de Deus. Pois, se a consciência do homem pós moderno é de que não há verdade absoluta, logo a escritura sagrada passa a ser algo totalmente subjetiva e sem muita importância. A partir daí surgem os questionamentos: As escrituras sagradas não foram escritas acerca de 2000 anos atrás? Será que não houve erro por parte dos tradutores? Se a escritura bíblica é a verdade de Deus, porque há uma fragmentação na comunidade cristã? Se Jesus é o mesmo para todos os cristãos, porque então existem tantas igrejas? Meu intuito aqui, não é de gerar mais controvérsias a esse respeito, e sim, tentar levá-lo (a) a uma reflexão da realidade complexa e presente. A questão, está na relativização das coisas pelo processo científico. Entretanto, nesse caso, a escritura sagrada não pode ser julgada a partir desta ótica, pois toda a ciência necessita de um objeto de pesquisa e sendo assim, por ser Deus transcendental, ou seja, além dos limites do mundo e o autor das escrituras sagradas, torna-se impossível qualquer tentativa de passá-la no crivo da pesquisa científica. Precisamos olhar para a palavra de Deus numa perspectiva de "infalibilidade", e como verdade suprema e absoluta. Pois é o próprio Deus que se desnuda diante de nós para que vivamos aqui e agora sua própria existência. Porém, para isso o fator "fé" é de vital importância! Toda a cristandade geme a espera de milagres. Necessita-se do milagre da cura física ou emocional, da libertação espiritual, da provisão financeira e da vida profissional, do bom relacionamento conjugal e familiar e outros mais.
Segundo o evangelho de Lucas 7:1-10, temos a descrição de um certo oficial romano denominado pela narrativa bíblica de "centurião", pois possivelmente este comandava um exército de cem homens. Segundo a bíblia, um dos servos deste centurião encontrava-se enfermo, o que levou-o a buscar ajuda em Cristo por conta de sua fama que corria por toda parte. Este homem estava prestes a contemplar um milagre. Apesar de ser gentio, era possuidor de uma fé que até aquele momento Jesus não havia encontrado em Israel. Imagino que, tanto quanto eu, muitos estão a espera de um milagre! Para isso precisamos saber, qual o tipo de fé que opera milagres? Vejamos os elementos da fé do centurião:

1) Profunda humildade

A humildade é um pré-requisito para o milagre, pois da humildade precede a honra. Deus tem prazer em honrar nossa fé a partir deste princípio. Quando agimos de humildade, reconhecemos nossa insuficiência e incapacidade, demonstrando desta forma nossa total dependência Dele. Apesar do centurião gozar de uma certa popularidade e reconhecimento de sua autoridade, curvou-se diante de Jesus reconhecendo nele autoridade superior à sua própria.

2) Absoluta confiança no poder de Cristo sobre todas as forças invisíveis que flagelam a humanidade.
Temos ouvido nestes dias sobre diversos tipos de caos que a humanidade e a sociedade como um todo tem enfrentado. O caos do aquecimento global, o caos da corrupção, o caos das enfermidades virais, o caos da violência, o caos da prostituição, o caos da criminalidade, o caos da miséria, o caos da intolerância religiosa e também porque não dizer sobre o caos da "religião". Todos estes males são muitas das vezes forças invisíveis que tem flagelado a humanidade, bem como também a comunidade cristã. Não são poucos os que se sentem impotentes diante destas coisas, muitas das vezes, pela simples razão de não conhecerem e confiarem nas escrituras e no poder de Deus. Desta forma, vivem perplexos e desmotivados diante das intempéries da vida. Quando o Centurião viu Jesus se aproximando, correu ao seu encontro dizendo que não era digno que Jesus entrasse em sua casa. Disse que bastava uma só palavra que seu servo seria curado. Este homem sabia que quando um chefe ordena uma tarefa a seu servo, não precisa estar presente para a execução da mesma. Esta atitude do centurião demonstrou sua total confiança na autoridade e poder absoluto de Cristo.

É possível vivermos uma porção do Reino de Deus aqui e agora! Podemos superar os males emergentes, sobretudo, podemos viver os milagres de Deus a cada instante de nossas vidas. Entretanto, os dois elementos fundamentais que operam a fé, enumerados anteriormente, precisam ser praticados. É essa fé que opera milagres!!!

Pr. Marco Mardine - Bacharel em Teologia (Fathel/Unifil), Bacharel em Filosofia (Faculdade Sinal), Licenciatura em Filosofia (ISCH) e Pós Graduado em Ciências da Religião (Faculdade Sinal)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O colapso do Movimento Evangélico


Ricardo Gondim

Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".

Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .

Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.


É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.


Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".

Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.

O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.

1. A teologia da Graça

Desde a Reforma, protestantes e católicos passaram a trabalhar a Graça como pedra de arranque de um novo cristianismo. O texto bíblico, “o justo viverá da fé”, acendeu o rastilho de pólvora que alterou a cosmovisão herdada da Idade Média. A Graça impulsionou o cristianismo para tempos mais leves. Foi a Graça que acabou com a lógica retributiva que mostrava Deus como um bedel a exigir penitência. Devido a Graça entendeu-se que a sua ira não precisa ser contida. O cristianismo medieval fora infectado por um paganismo pessimista e, por isso, sobravam espertalhões vendendo relíquias e objetos milagrosos que, segundo a pregação, “ garantiam salvação e abriam as janelas da bênção celestial”.


Lutero, um monge agostiniano, portanto católico, percebeu que o amor de Deus não podia ser provocado por rito, prece, pagamento ou penitência. Graça, para Lutero, significava a iniciativa de Deus, constante, unilateral e gratuita, de permanecer simpático com a humanidade. Lutero intuiu que Deus não permanecia de braços cruzados, cenho franzido, à espera de que homens e mulheres o motivassem a amar. O monge escancarou: as indulgências eram um embuste. Assim, Lutero solapava o poder da igreja que se autoproclamava gerente dos favores divinos.


Passados tantos séculos, o movimento neopentecostal, responsável pelas maiores fatias de crescimento entre evangélicos, abandonou a pregação da Graça. (É preciso ressaltar, de passagem, que o conceito da Graça pode até constar em compêndios teológicos, mas não significa quase nada no dia-a-dia dos sujeitos religiosos).


Os neopentecostais retrocederam ao catolicismo medieval. É pre-moderna a religiosidade que estimula valer-se de amuletos “como ponto de contato para a fé”; fazerem-se votos financeiros para “abrir as portras do céu”; “pagar o preço” para alcançar as promessas de Deus. Desse modo, a magia espiritual da Idade Média se disfarçou de piedade. A prática da maioria dos crentes hoje se concentra em aprender a controlar o mundo sobrenatural. Qual o objetivo? Alcançar prosperidade ou resolver problemas existenciais.


2. A compreensão da Fé

“A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa é um trabalho primoroso que explica a influência do fundamentalismo entre evangélicos.

“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).

Ora, enquanto fé permanecer como uma “alavanca que move os céus”, as liturgias continuarão centradas na capacidade de tornar a oração mais eficaz. Antes dos neopentecostais, o Movimento Evangélico já se distanciara dos Místicos históricos que praticavam a oração com um exercício de contemplação e não como ferramenta de como tornar Deus mais útil.

Fé não é uma força que se projeta na direção do Eterno. Fé não desata os nós que impedem bênçãos. Fé é coragem de enfrentar a vida sem qualquer favor especial. Fé é confiança de que os valores de Cristo são suficientes no enfrentamento das contingências existenciais. Fé aposta no seguimento de Cristo; seguir a Cristo é um projeto de vida fascinante.

O neopentecostalismo ganhou visibilidade midiática, alastrou-se nas camadas populares e se tornou um movimento de massa. Por mais que os evangélicos conservadores não admitam, o neopentecostalismo passou a ser matriz de uma nova maneira de conceber as relações com o Divino.

A alternativa para o rolo compressor do neopentecostalismo só acontecerá quando houver coragem de romper com dogmatismos e com os anseios de resolver os problemas da vida pela magia.

O caminho parece longo, mas uma tênue luz já desponta no horizonte, e isso é animador.

Soli Deo Gloria

Fonte: Ricardo Gondim
http://www.ricardogondim.com.br