segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O colapso do Movimento Evangélico


Ricardo Gondim

Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".

Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .

Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.


É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.


Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".

Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.

O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.

1. A teologia da Graça

Desde a Reforma, protestantes e católicos passaram a trabalhar a Graça como pedra de arranque de um novo cristianismo. O texto bíblico, “o justo viverá da fé”, acendeu o rastilho de pólvora que alterou a cosmovisão herdada da Idade Média. A Graça impulsionou o cristianismo para tempos mais leves. Foi a Graça que acabou com a lógica retributiva que mostrava Deus como um bedel a exigir penitência. Devido a Graça entendeu-se que a sua ira não precisa ser contida. O cristianismo medieval fora infectado por um paganismo pessimista e, por isso, sobravam espertalhões vendendo relíquias e objetos milagrosos que, segundo a pregação, “ garantiam salvação e abriam as janelas da bênção celestial”.


Lutero, um monge agostiniano, portanto católico, percebeu que o amor de Deus não podia ser provocado por rito, prece, pagamento ou penitência. Graça, para Lutero, significava a iniciativa de Deus, constante, unilateral e gratuita, de permanecer simpático com a humanidade. Lutero intuiu que Deus não permanecia de braços cruzados, cenho franzido, à espera de que homens e mulheres o motivassem a amar. O monge escancarou: as indulgências eram um embuste. Assim, Lutero solapava o poder da igreja que se autoproclamava gerente dos favores divinos.


Passados tantos séculos, o movimento neopentecostal, responsável pelas maiores fatias de crescimento entre evangélicos, abandonou a pregação da Graça. (É preciso ressaltar, de passagem, que o conceito da Graça pode até constar em compêndios teológicos, mas não significa quase nada no dia-a-dia dos sujeitos religiosos).


Os neopentecostais retrocederam ao catolicismo medieval. É pre-moderna a religiosidade que estimula valer-se de amuletos “como ponto de contato para a fé”; fazerem-se votos financeiros para “abrir as portras do céu”; “pagar o preço” para alcançar as promessas de Deus. Desse modo, a magia espiritual da Idade Média se disfarçou de piedade. A prática da maioria dos crentes hoje se concentra em aprender a controlar o mundo sobrenatural. Qual o objetivo? Alcançar prosperidade ou resolver problemas existenciais.


2. A compreensão da Fé

“A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa é um trabalho primoroso que explica a influência do fundamentalismo entre evangélicos.

“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).

Ora, enquanto fé permanecer como uma “alavanca que move os céus”, as liturgias continuarão centradas na capacidade de tornar a oração mais eficaz. Antes dos neopentecostais, o Movimento Evangélico já se distanciara dos Místicos históricos que praticavam a oração com um exercício de contemplação e não como ferramenta de como tornar Deus mais útil.

Fé não é uma força que se projeta na direção do Eterno. Fé não desata os nós que impedem bênçãos. Fé é coragem de enfrentar a vida sem qualquer favor especial. Fé é confiança de que os valores de Cristo são suficientes no enfrentamento das contingências existenciais. Fé aposta no seguimento de Cristo; seguir a Cristo é um projeto de vida fascinante.

O neopentecostalismo ganhou visibilidade midiática, alastrou-se nas camadas populares e se tornou um movimento de massa. Por mais que os evangélicos conservadores não admitam, o neopentecostalismo passou a ser matriz de uma nova maneira de conceber as relações com o Divino.

A alternativa para o rolo compressor do neopentecostalismo só acontecerá quando houver coragem de romper com dogmatismos e com os anseios de resolver os problemas da vida pela magia.

O caminho parece longo, mas uma tênue luz já desponta no horizonte, e isso é animador.

Soli Deo Gloria

Fonte: Ricardo Gondim
http://www.ricardogondim.com.br

quinta-feira, 4 de março de 2010

Educação Teológica

A Igreja brasileira vive um momento singular em sua história. O crescente número de igrejas e denominações trouxe visibilidade aos evangélicos. Atingimos todas as classes sociais e estamos na mídia numa explosão de programas em todos os meios de comunicação. Há modelos diferenciados de ministérios, uns com liturgias exóticas e outros que se mantêm na tradição. Mas, o que mais preocupa, é que esse crescimento quantitativo não tem sido acompanhado nem marcado pela qualidade. É aí que reside a premente necessidade da Educação Teológica.


Há templos cheios, mas púlpitos vazios. Há coreografias e louvores em diversificados ritmos, mas nem sempre é possível ouvir o som da poderosa voz de Deus. Há muitos valores contabilizados, mas os valores do caráter cristão estão escassos.

Precisamos de uma reforma, precisamos voltar às Escrituras, e isso só é possível se a Escola Teológica se empenhar em formar homens e mulheres comprometidos com o ensino das Escrituras. Certamente, há no Brasil centenas de instituições de ensino teológico, algumas com o padrão do MEC, outras se preocupando apenas com o estilo da sua comunidade. No entanto, há necessidade de um modelo de educação teológica que:

  • prepare ministros de forma integral;
  • forme ministros comprometidos com o ensino das Escrituras;
  • priorize o caráter no exercício das suas funções;
  • ofereça oportunidades para a prática ministerial;
  • prepare líderes que sirvam às igrejas.

Nossa reflexão relaciona a tarefa de formar pastores/ministros com a missão da Igreja. É sobre esse modelo que refletiremos em seguida.

Uma educação teológica de qualidade deve preparar o ministro de forma integral

O princípio fundamental da educação é contribuir com o desenvolvimento integral da pessoa, é considerar o aluno como um todo evitando sua fragmentação. Trata-se de um modelo que parte da visão integral do indivíduo e enfatiza a formação de vidas maduras do ponto de vista intelectual, social, operacional, pessoal (ontológico) e afetivo. Como educadores na área da teologia, somos desafiados a elaborar um programa pedagógico que alcance os alunos como ser integral, dando-lhes a oportunidade de crescer como pessoa e desenvolver suas habilidades e competências para um ministério bem-sucedido, que atenda à realidade da Igreja brasileira e do mundo pós-moderno.

No trabalho educacional, para que a formação do ministro seja integral e para que a Igreja cumpra sua missão holística, os ensinos teórico e prático não podem estar desassociados.

A inserção de conteúdos para valorização da cultura, da ética e da cidadania e os conhecimentos adquiridos das experiências formais e informais preparam o aluno para adentrar no ministério, contextualizando a mensagem do Evangelho às novas realidades e aos contextos da nossa época.

Capacitá-los para unir o saber às evidências do contexto: “É colocar o homem como sujeito da educação e, apesar de uma grande ênfase no sujeito, evidencia-se uma tendência interacionista, já que a interação homem-mundo, sujeito-objeto é imprescindível para que o ser humano se desenvolva e se torne sujeito de sua praxis.” 1

Para esse modelo, será necessário rever os objetivos educacionais, o planejamento curricular, o conteúdo programático, o preparo do professor e a visão do aluno. Só um ser total é capaz de se realizar plenamente naquilo que executa e no desempenho do seu ministério.

A educação teológica deve formar o ministro comprometido com o estudo e o ensino da Escritura Sagrada.
O verdadeiro ensino a que se propõe a Teologia é o ensino da Palavra. É necessário dar atenção a interdisciplinaridade, porém nenhum conteúdo curricular deve sobrepor-se a voz de Deus expressa no texto sagrado. “Continuamos convictos de que a Palavra de Deus fornece o paradigma atemporal que define a natureza e as características do pastorado.”2 Se a Escritura não tiver a centralidade da vida e da prática ministerial, não podemos afirmar que somos profetas para nossa geração. Infelizmente, presenciamos muitos pregadores, não digo apenas os televisivos, ou os neopentecostais, mas pastores que passaram por renomados seminários e que substituem a Escritura Sagrada por palavras de autoajuda, por argumentação humanística e filosófica, histórias imaginárias sobre o texto bíblico deixando obsoleto o ensino genuíno da Palavra de Deus. Parece que a Palavra perdeu sua atualidade. John Stott nos lembra que: “A velha Palavra de Deus é atual porque alcança o homem do século XXI em suas reais necessidades. Fala à sua cultura ao seu contexto – o ecossistema e a preservação da natureza — às questões sociais e econômicas. A Bíblia é o preceito divino para todos os homens em todas as épocas e em todas as culturas”. 3

É através da filosofia institucional comprometida com a Escritura que a escola prepara seus alunos para o uso profundo da Palavra relevando o texto sagrado a qualquer outro conteúdo. Deve fazer parte dos objetivos da Instituição o ensino centrado na Palavra, a ênfase na vida devocional e o compromisso pelo exame acurado do livro de Deus.

Se esses valores forem adquiridos durante o tempo de preparo, o pregador não se contentará em usar esboços de sermões encontrados na internet, plagiando os grandes pensadores; ele aprenderá a primar pela originalidade e a buscar no texto sagrado a mensagem de Deus para o povo.

John MacArthur assinala: “Jamais diria que prego teologia sistemática. Prefiro dizer que prego um aspecto da teologia bíblica — a teologia extraída do estudo de um texto.”4 Ele afirma que gasta trinta horas por semana com o estudo da Palavra, preparando-se para pregar três horas. Uma educação teológica de qualidade forma líderes como Apolo —“Poderoso nas Escrituras” (At 18.24).

Uma educação teológica de qualidade deve priorizar a formação do caráter
Toda educação tem por fim a formação do caráter — alcançar o indivíduo na sua integralidade, com o objetivo de tornar o homem um cidadão útil à sociedade. A educação teológica tem uma proposta ainda mais desafiadora. Além de trabalhar com o indivíduo, com um ser psicossocial, afetivo e cognitivo, trabalha com um ser espiritual. Ela tem a responsabilidade de formar o caráter, não apenas objetivando o padrão social, com os traços que delineiam os valores morais de um cidadão consciente, mas também se responsabilizando pela formação do caráter cristão num nível muito mais elevado — “...Cristo em vós, a esperança da glória”; “...até que Cristo seja formado em vós”; “...até que todos cheguemos... à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Cl 1.27; Gl 4.19; Ef. 4.13).

Até hoje os educadores tropeçam na árdua missão de formar. Com todas as mudanças de paradigmas no sistema ensino-aprendizagem e inovações técnico-metodológicas no sistema educacional, ainda temos uma educação voltada para as funções intelectivas. Como educadores cristãos, nós também temos tropeçado, e, na verdade, formamos pessoas em um grau bem insignificante em comparação com o quanto informamos. Como “Platão pressupunha que passamos a conhecer a verdade através da razão, este conceito, traduzido em termos cristãos, relaciona a fé com atividade cerebral”. 5

Criar a consciência de valores morais, pessoais e espirituais e conduzir a pessoa para ser capaz de elaborar juízo de valor de modo a decidir por si mesma e agir com autonomia em diferentes circunstâncias da vida é o que devemos objetivar.

A prática educativa, seja qual for a sua área, tem o papel essencial de conferir a todos os seres humanos, a habilidade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que necessitam para desenvolver seus talentos. Para isso, ela deve oferecer oportunidades para que o aluno desenvolva suas potencialidades: a memória, o raciocínio, o cognitivo, o afetivo, o sentido estético, a aptidão para comunicar-se e as habilidades diversas.

Mas, antes de tudo, o papel do educador é conduzir o aluno a aprender a ser, com o objetivo da realização completa do homem na complexidade das suas expressões e dos seus compromissos, para manifestação da glória de Deus e do seu Cristo.

Não podemos esquecer que o conhecimento adquirido é para edificação da Igreja no exercício da mutualidade dos seus membros e expansão do reino eterno em todo mundo.

A educação é, portanto, ao mesmo tempo, um processo individualizado e uma construção social interativa. Não saber por saber ou para sobrepor-se aos demais, defendendo uma postura clerical exacerbada. Para formar caráter, devemos trabalhar com os objetivos atitudinais. Bons resultados têm sido obtidos com entrevista, tutoria, mentoria e aconselhamento psicológico, buscando a prática do discipulado e da integração grupal, visando à construção equilibrada do ser. Nas matérias bíblicas, a aplicabilidade das Verdades divinas à vida pessoal é uma excelente ferramenta para alcançar esse objetivo. Para isso, “Precisamos de professores-pastores e pastores-professores, não de professores ou pastores como propõe o Prof. Carlos Antonio N. Thompson do seminário Palavra da Vida.

Os escândalos que presenciamos seriam evitados se os líderes tivessem se submetido a um programa de formação do caráter — os valores cristãos que marcam a nossa identidade. Robert Clinton, escrevendo sobre: ‘Etapas na vida de um líder’, expõe que “Deus trabalha primordialmente no líder, não por meio dele. Seguindo o princípio de que o ministério flui do que se é toma novo significado à medida que o caráter do líder toma corpo e amadurece.”6 Ensinar a ser deve preocupar-nos muito mais que ensinar a fazer, pois o caráter é o que dá forma e caracteriza o trabalho cristão.

A educação teológica deve oferecer oportunidades para a prática ministerial
A educação teológica, como toda educação, deve esmerar-se para oferecer uma prática que justifique a busca do conhecimento. Ela não deve restringir seu conteúdo a conceituações e codificação do saber. Primeiro, porque devemos compreender o mundo e o contexto em que estamos inseridos. O conhecimento só tem valor, se for capaz de fazer a interação do homem com seu habitat e com o seu contexto social. Segundo, pelo prazer de entender a Verdade para fazê-la entendida num ‘modus vivend’ de cada um.

A elaboração do currículo das escolas teológicas não se deve concentrar numa proposta academicista, explorando apenas o poder de raciocínio dos seus alunos. Se sua missão é preparar obreiros para servir a Igreja e as comunidades, e apresentar o Evangelho de Cristo, como a mensagem para as necessidades do homem todo e para todo o homem, ela deve oportunizar experiências reais, para que seus alunos tenham contatos com as várias classes sociais e sintam a carência dos indivíduos a quem a mensagem deve alcançar.

O que constatamos nos nossos modelos, na sua maioria, é a preocupação exacerbada com a oratória e a prática do sermão. Atestamos que pregar bem é uma exigência legal para quem é vocacionado para o ministério sagrado. Porém, a Igreja precisa de ministérios diversificados e não apenas de bons pregadores. Para realizar sua missão, ela deve estar presente em todos os segmentos da sociedade. Em um país em desenvolvimento como o nosso, há uma necessidade premente de ministros que saibam falar não apenas a mentes privilegiadas, mas a corações sofridos, aos que precisam ver, não apenas ouvir, a veracidade da mensagem, que deve ser expressa em atitudes de amor e de solidariedade.

Se o aluno de teologia não é treinado a ver as formas em que a mensagem do evangelho toma forma, sua prédica nunca terá a forma da cruz e sua vida nunca experimentará a encarnação da mensagem. Somos seguidores do Cristo, o Verbo eterno, que se encarnou tornando-se servo para todos aqueles que necessitam da expressão da sua vida nas mais variadas formas de vida.

Se as faculdades seculares elaboram estágios desde o primeiro ano do curso, e as empresas em parceria recebem os estudantes para prepará-los melhor para o mercado, é porque descobriram a antiga regra da Pedagogia: “Só podemos dizer que houve aprendizado, quando o aluno é capaz de praticar o conceito ou a regra aprendida. Só se aprende fazendo.” Na Educação Teológica não pode ser diferente porque o nosso trabalho alcança a vida humana em todas as suas expressões.

“Toda teologia é essencialmente prática. A teologia é prática no sentido de que ela se ocupa, em todas as suas expressões, das questões mais básicas da existência humana. A Teologia é prática porque pensa e elabora a fé em sua relação com a vida.” 7

Preparar ministros que sirvam as igrejas
Recebemos os alunos da igreja e não podemos prepará-los bem sem manter o elo com a igreja. Sabemos que o vocacionado vem da igreja em que ele recebeu o seu chamamento e que, após o tempo de preparação, voltará a servir em sua comunidade, pelo menos deve ser essa a proposta. Sabemos que nem sempre é assim, porque há líderes que não acompanham a vida de seus vocacionados. Por trabalhar em um seminário interdenominacional, recebemos alunos de igrejas históricas, os quais não têm nenhuma perspectiva de ministério junto à denominação, outros de igrejas independentes que não têm sequer apoio da liderança para estudarem. Se a liderança não é formada, por que há necessidade de receber formação para dirigir igreja? Os que vêm de igrejas pentecostais raramente têm apoio. Na verdade, a realidade é muito complexa. Vivemos um momento histórico em que definir a linha teológica, a liturgia e a formação dos obreiros da igreja evangélica é muito complicado. Não podemos definir a postura do líder pela denominação que ele professa. Mas, uma coisa é verdadeira: nenhuma faculdade ou seminário maior deve esquecer que o produto do seu trabalho é oferecer a igreja o obreiro capacitado para toda boa obra. É isso que se espera de alguém que dedicou quatro ou cinco anos de sua vida preparando-se para a obra do ministério.

Por que algumas denominações se decepcionaram com suas instituições de ensino? Porque receberam os vocacionados mais descrentes em relação à Bíblia do que quando foram enviados, mais conhecedores dos pensadores modernos do que dos pais da Igreja. E alguns deles não puderam se inserir nas atividades eclesiásticas.
Por que outras denominações chegaram a proibir seus vocacionados de frequentar uma escola teológica? Porque tinham medo de perdê-los para o mundo do conhecimento.

É mister que as instituições de ensino se posicionem como parceiras das igrejas na formação dos seus vocacionados. Receber uma carta de recomendação é muito pouco para uma tarefa tão importante. Por outro lado, a igreja deve assumir sua parte na parceria, acompanhando o desenvolvimento espiritual, prático e acadêmico de seus membros.

Ouvi de um pastor que sua denominação programou a abertura de 200 novas igrejas dentro de um ano. Porém, comentou-se: Como abrir trabalhos pioneiros se o seminário está preparando para o púlpito e não para o campo? Uma educação teológica de qualidade deve preparar o vocacionado para servir a igreja em todos os seus programas e projetos no cumprimento de sua missão integral.

Para trabalhar com esses princípios, a educação teológica deve cumprir sua missão de educar com uma visão integral do indivíduo e do ministério, a fim de que possamos formar líderes:

  • “Com a mente de um teólogo” — capaz de pensar teologicamente para expor a Verdade divina com profundidade, clareza e precisão.
  • “Com o coração de um místico” — experimentado na vida devocional, no campo da espiritualidade e da relação com Deus. Diplomado nas disciplinas espirituais.
  • “Com a coragem de um desbravador”— treinado na prática, ousado como foram os pioneiros que ultrapassaram as fronteiras, prontos a qualquer tipo de tarefa que objetiva a expansão do Reino eterno.
  • “Com a humildade de um santo” — capaz de conviver com pessoas de diferentes níveis de educação, cultura, de divergentes pontos doutrinários e de distintas formas de dons. Tratado na personalidade e trabalhado nas emoções, fortalecido com a superabundante graça de Deus.

Temos diante de nós o grande desafio de aperfeiçoar o nosso programa de educação teológica a fim de que alcancemos esse perfil de ministros tão necessário para a Igreja e para a sociedade.


1 MIZUKAMI, Maria da Graça, Ensino: as abordagens do processo. EPU, 1986.
2 MACARTHUR, John, Jr., Redescobrindo o ministério pastoral. CPAD. 1999, p. 235.
3 STOTT, John, Cristianismo autêntico. Vida, 2001, p. 88.
4 MACARTHUR, John, Jr., Redescobrindo o ministério pastoral. CPAD, 1999. p. 32.
5 BOLT, Martin e Myers, David, Interação Humana. Vida Nova, 1989.
6 CLINTON, J. Robert. Etapas na vida de um líder. Editora Descoberta, 2000, p. 49.
7 ROSA, R.S. O que é teologia prática? Notas introdutórias. In Simpósio, n. 36, ASTE, 1993, p. 7.
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Bibliografia:
MIZUKAMI, Maria da Graça, Ensino: as abordagens do processo. EPU, 1986.
MACARTHUR, John, Jr., Redescobrindo o ministério pastoral. CPAD. 1999, p. 235.
STOTT, John, Cristianismo autêntico. Vida, 2001, p. 88.
MACARTHUR, John, Jr., Redescobrindo o ministério pastoral. CPAD, 1999. p. 32.
BOLT, Martin e Myers, David, Interação Humana. Vida Nova, 1989.
CLINTON, J. Robert. Etapas na vida de um líder. Editora Descoberta, 2000, p. 49.
ROSA, R.S. O que é teologia prática? Notas introdutórias. In Simpósio, n. 36, ASTE, 1993, p. 7.

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Durvalina B. Bezerra é mestra em educação pela UP Mackenzie, diretora do Seminário Betel Brasileiro (São Paulo), coordenadora da Rede de Mobilização de Mulheres de Ação Global para o Estado de São Paulo e vice-presidente do Conselho Nacional de Oração, autora dos livros A missão de interceder (Londrina: Descoberta, 2001) e Ministério cristão e espiritualidade (Belo Horizonte: Betânia, 2007)

A missão da teologia na vida de líderes e ministros do Evangelho


Até pouco tempo atrás, teologia e missão eram dois termos que não se combinavam. Nos últimos quarenta anos do século passado, porém, os encontros entre teologia e missão foram crescendo em número e em qualidade, até se construírem as “teologias da missão” e vários pensadores começarem a afirmar que a teologia é parte integrante da missão do povo de Deus. Nos últimos vinte anos do século XX, toma forma a reflexão sobre a missão da teologia, muito forte na teologia política européia, na teologia pública norte-americana, na teologia da libertação e na teologia evangelical latino-americanas. Nos primeiros anos deste novo século, tem-se a impressão que o noivado entre teologia e missão está em crise, parece que o amor diminuiu e do lado da missão as preocupações com eficácia e resultados têm sido cada vez mais dominantes – o mesmo valendo para a atuação pastoral e das lideranças eclesiásticas em geral.

Não é possível deixar de perceber nessa crise sinais do sucesso do pensamento político-econômico neoliberal e sua concretização nas formas de governo e da economia das nações. Valores como amor, solidariedade, honestidade, justiça social têm sido declarados como ilusórios, bem-intencionados mas ineficazes, românticos, fora da realidade. Em seu lugar, imperam os valores do lucro, da eficácia, da competitividade, da tecnologização, do consumismo. Não só as grandes estruturas políticas e econômicas funcionam assim, mas também as relações humanas no cotidiano sofrem essa transformação de valores. Se você é pastor, pastora, líder de igreja, sabe bem o que estou dizendo – já perdeu membros para igrejas mais "em dia", está lidando cada vez mais com problemas familiares na comunidade, não sabe bem o que fazer com a atividade sexual dos adolescentes e jovens da igreja, etc. Se você trabalha "secularmente", então, a lista dos sintomas poderia ser bem maior – desonestidade na competição pelo emprego, pelas promoções, pelos salários; propostas indecentes se tornando cada vez mais comuns, etc.

Quando enfrentamos uma crise de valores desta envergadura, a primeira reação é a da perplexidade – não sabemos o que fazer. Depois, tentamos enfrentar aberta e corajosamente os problemas – o que normalmente não funciona, e ficamos tachados de obscurantistas, conservadores, e mais. Por fim, "aderimos" – é claro que iremos encontrar uma boa justificativa teológica ou missiológica para a adesão, alguns até mesmo reconhecem simplesmente que é uma questão de sobrevivência. Bem, eu gostaria de apresentar uma alternativa. Diante da crise de valores e de comportamento, é hora de fazer teologia, é hora de redescobrir a missão da teologia.

Em primeiro lugar, é missão da teologia nos ajudar a crescer em discernimento espiritual (Colossenses 1.9-12; Romanos 12.1-2) – é a renovação da mente, o conhecimento pleno da vontade de Deus, que são instrumentos do Espírito para nos ajudar a reencontrar os valores ameaçados ou mesmo perdidos. É missão da teologia nos ajudar a pensar naquilo que é puro, justo, agradável a Deus (cf. Filipenses 4.8-9). Mas, dirá você, isto irá resolver os problemas? Na hora, não. A médio prazo, certamente ajudará a encontrarmos em nosso dia-a-dia as pegadas de Cristo para que as possamos seguir. Você se lembra que Jesus não fazia o jogo dos valores dominantes em seu tempo? Ele valorizou as crianças, as mulheres, as pessoas impuras, as empobrecidas, até mesmo disse que os "piores" pecadores iriam preceder os "melhores" líderes religiosos no Reino dos Céus. Lembra-se da referência?

Pensando em você que lidera ou pastoreia o povo de Deus, quero afirmar com toda convicção que o tempo que você investir para pensar e fazer teologia será um dos tempos mais bem gastos do seu ministério. Cá pra nós, só perde em qualidade para o tempo que você investe na oração e adoração a Deus. Mas, perguntará você novamente, isso vai me ajudar a ser mais eficaz. Com certeza! Você será mais eficaz do ponto de vista de Deus. Se você permitir que o Espírito renove a sua mente, o seu fazer teológico será instrumento de Deus para melhorar sua atuação ministerial. Você duvida? Faz bem, mas faz melhor aquele que crê contra as evidências!

Júlio Zabatiero é Doutor em Teologia e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Independente da Coloninha. Além disso é professor da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS), presidente da Fraternidade Teológica Latino-Americana, setor Brasil, e professor visitante da Faculdade Teológica Sul Americana.